quinta-feira, 27 de maio de 2010

Credor.

Ela disse assim: "Pára. Não quero mais nada com você. Não lhe devo nada, por favor, não faça como se eu devesse."

Vadia.
Como alguém pode dizer uma coisa dessas? Como alguém, depois de acabar um relacionamento de maneira tão súbita da maneira como acabou, pode dizer em sã consciência que não deve nada ao outro? Não, não, eu digo que ela me deve muito. E estou aqui para cobrar.
A começar, devolva-me o tempo que perdi planejando nosso futuro. Planejando com todo o cuidado as nossas noites juntas, o que lhe diria ao talvez pedir sua mão, as nossas férias pra esse janeiro, a comida da semana que vem. Devolva-me também o relógio que lhe dei no último natal, pra você ser um pouco menos avoada, ser menos perdida no tempo e espaço, pra não perder a hora dos nossos encontros ou das suas consultas médicas.
Devolva-me as canções que fiz pensando em você, as melodias que me soam completamente desafinadas agora, minhas tentativas vãs de te fazer aprender a tocar violão, seus dedos correndo o braço desengonçados, a maneira como você escondia a cabeça no violão, depois levantava sorrindo e dizia "toma, vai. não consigo". Devolva-me a maneira como me sentia bem ao tocar para mim mesmo velhas composições, como me sentia respeitando grandes nomes da música ao tocar sem errar uma nota suas letras de amor. Devolva-me também meu caderno de rabiscos musicais e, se não for pedir muito, devolva-me minha coletânea de MPB que eu guardei com todo o cuidado e que você sempre desarrumava querendo saber o nome de tal música.
Devolva minha solidão ao dormir, meu costume de dormir em qualquer lado da cama sem me sentir mal. Devolva-me o ar do colchão que levaste e deixaste o seu lado amassado dando uma sensação patética de vazio. Devolva-me também meus tampões que usavas pra não ter que me ouvir roncar.
Devolva minha vontade de chegar em casa e descansar sozinho. Devolva minha habilidade de cozinhar e de gostar da comida que cozinho quando chego do trabalho. Devolva meu prazer de sentar à mesa e não ter de ouvir seus lamentos e suas histórias do dia. Devolva meu prazer de não contar à ninguém sobre meu dia, só aos fins de semana, no bar com meus amigos. Devolva meu cheiro às minhas coisas, tire daqui seu perfume que empesteou meu lar, meu nariz, enevoou meus sentidos. Devolva também aquele meu livro favorito, que você sempre esquecia de me devolver.
Devolva meus sorrisos, minha alegria de viver, de me sentir pertencendo à este mundo. Devolva meu prazer de acordar todas as manhãs para fazer o que quer que eu tenha que fazer. Devolva minha indiferença ao ver casais de mãos dadas nas ruas, falando sabe-se-lá-o-quê ao pé do ouvido, se beijando tão apaixonados. Devolva meus risos sinceros, devolva meu gosto por abraçar outras pessoas que não sejam você. Devolva minha vontade de beijar outras mulheres até mais bonitas que você. Devolva meu coração - por favor, devolva meu coração para que eu possa dá-lo à alguém que o consertará. Que cuidará dele da maneira como você cuidou tão bem, mas que não o jogará na parede ou deixará escorrer pelas mãos, caindo em câmera lenta e se partindo em milhares de pedacinhos no chão. Que o deixará seguro na prateleira, no travesseiro ou dentro da bolsa que usa todo dia. Que o guardará junto ao seu coração e que cumprirá a promessa de tê-lo inteiro até o fim.
Devolva-me.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Comme Si De Rien N'Était

Ele saiu do carro. Bateu a porta, assistiu o carro amarelo dobrar a esquina, desaparecer na rua. Ficou parado ali um tempo, com a sensação de ainda estar olhando o táxi.
Suspirou. Entrou no prédio, apertou o botão do elevador, se olhou no espelho. De alguma forma, estava agitado, nervoso, alterado; por outro lado, seus olhos mostravam um descompasso, como se não estivesse ali, como se não pertencesse àquele momento. Meteu a mão no bolso, tirou o molho de chaves, saiu do elevador. Parou em frente à porta.
E agora? Se preparara milhares de vezes para aquele momento, treinou no espelho com vozes, olhares, gestos. "Não posso pedir desculpas, as coisas são assim". "Não é você, somos nós dois..não, não existe outra, acredite em mim". Não era fácil. Passara alguns anos com ela, de uma hora pra outra iria simplismente passar por aquela porta e dizer que não a amava mais. Ia olhar nos olhos dela e dizer que a relação se desgastou por pequenas coisas, pequenas briguinhas, ciúmes bobos, um copo colocado fora do porta copos que manchou a mesa da sala, o jogo que ele assistiu no único domingo que tinham juntos. Ia ver seus olhos se enchendo de lágrimas, a fala se prendendo na garganta. Sabia que na hora teria uma reação diferente, não ia simplismente vê-la desmoronar. Sua pele branca, macia, que se arrepiava quando o tocava, ia ficar vermelha, o olhar desesperado iria consumí-lo. Mas precisava ser forte. Precisava aceitar. Precisava seguir em frente.
Chega uma hora que acaba, simples assim. As coisas não foram feitas pra durarem a eternidade, ambos sabiam disso. Ele sabia que ia ser uma coisa um tanto quanto imprevisível. Até mês passado ambos acabavam as ligações com um 'Eu te amo' tão normal quanto um 'tchau'. Talvez tenha sido isso, talvez tenha ficado banal demais. Até mês passado ele a considerava essencial, até mês passado ele não poderia viver sem ela. Ela a completava, o fazia um homem inteiro.
E então ele se deu conta - e já era hora, diga-se de passagem - que não é assim que funciona. Ele percebeu que não precisava de uma metade de laranja, de uma tampa de panela. Ele se deu conta que já nascera completo. Que as pessoas não nos completam, nos somam. Nós nos juntamos à alguém, aprendemos, crescemos. E chega uma hora que não há mais o que aprender desse relacionamento, é hora de seguir em frente. Não é motivo de lamento. Ousaria dizer que é motivo de certa alegria, depois da óbvia tristeza de não ter mais o outro ao seu lado. Alegria por conseguir ter tantos bons momentos com outra pessoa, ter tantas coisas boas acumuladas, ter aprendido tanto, ter extraído tanto conhecimento (mesmo que a outra pessoa não faça idéia do que fez) nesse período que não tem nem mais nada para ser dado. Só. Sem dor, sem hurt feelings. Apenas duas pessoas que, por sorte do destino se cruzaram, deram as mãos, sorriram e choraram juntas, se apoiavam, andaram bom pedaço da estrada e agora seguirão caminhos distintos. Encontrarão novos apoios. Aprenderão novas coisas, continuarão a sorrir e chorar. Talvez se unissem novamente, mas não era hora de pensar nisso, de jogar essa semente. Ela não precisava de esperança, de sonhos. Precisava aceitar a realidade do jeito que ela é, sem temer a solidão, sem temer o vazio que ficaria do lado dele da cama, a cadeira sem prato e talher na hora da janta e os telefonemas detalhando o dia.
Encarou os números do apartamento, talvez pela última vez. Brincou com as chaves, um, dois, três minutos, o tempo corria, já passara da hora. Escolheu a chave certa, colocou na fechadura, ouviu o cachorro anunciando sua chegada, impaciente para ver a pessoa do outro lado, anunciando sua chegada. Não tinha mais jeito.
Respirou fundo.

E entrou.

domingo, 11 de abril de 2010

Falando abertamente II

You know what? As coisas não são complicadas. Eu não sei porque as pessoas teimam em complicar, em mistificar, em mirabolar coisas que deveriam ser tão simples. Talvez só para terem o trabalho de se desenrolarem depois. Se as coisas não funcionam, faça-as funcionarem ou as abandone. Não dá trabalho fazê-las funcionarem, assim como não deveria ser doloroso abandoná-las. Se dá trabalho demais, se você push yourself demais, se você tenta demais e pouco consegue, se você se cansa e se machuca na intenção de fazer algo funcionar...bom, então você não deveria estar fazendo o que quer que isso seja logo de cara.
De quê, meu Deus, de quê adianta se magoar em prol dos outros? Se magoar em benefício de não sei lá quem? Relacionamento, seja qual for o tipo, não deve ser doloroso. Tem que ser leve, bonito e divertido pra ambas as partes. Se a magoou e ela não esqueceu, se brigam sempre e o relacionamento desgasta, siga em frente. Supere. Seja feliz.

Acho que as pessoas têm medo da felicidade. É uma explicação que faz muito sentido, na verdade. Quero dizer, é tudo o que sempre queremos, é basicamente a única coisa que buscamos na vida. Mas ela não está no final de um caminho extremamente tortuoso, cheio de curvas e obstáculos e barreiras e coisas e coisas e coisas e você fica cansado só de pensar em quão terá que andar com o mundo nas costas pra chegar à ela. NÃO! A felicidade está em cada esquina, em cada sala, em cada piscar de olhos. Sem querer soar muito auto-ajuda, apesar de ser inevitável quando se entra em assuntos que mexem tanto com o interior de cada um de tantas maneiras diferentes, mas é bobagem caçar felicidade como se fosse um bicho esguio. Só abra a porta, deixe-a entrar. Se você pensar dessa forma, sabe...é tudo simples.
Felicidade é uma coisa simples.
Quero dizer, supostamente ela é simples. Como relacionamentos.
Simples.

Relacionamentos são tão estressantes porque as pessoas acham que é tão difícil que duas pessoas possam ser realmente felizes, na mesma sintonia, na mesma hora e sob as mesmas circunstancias.
E é óbvio que é difícil. Ninguém pede pras coisas andarem no mesmo compasso. Ninguém quer um espelho. Ninguém quer - francamente, ninguém quer - uma alma gêmea, uma cara metade, uma tampa pra panela. Toda laranja tem a sua metade, mas porque necessariamente ela tem que estar com outra pessoa? Porque precisamos de alguém pra sermos completos?
Enquanto andamos por aí, nos apegando às pessoas, querendo que elas tenham algo que nós nem sabemos exatamente o que é, numa esperança vã e tola de que seremos finalmente completos, existe uma minoria que sabe de cor e salteado que já nasceu pronta. Que não precisa de outra pessoa para se completar, que cresce com os relacionamentos, que amadurece com eles, que aprende com eles, mas que não depende deles pra se tornar um ser. Pessoas felizes.

Pessoas simples.


Não deve ser bom andar na rua e saber que você está em dia com você mesmo? Que você encontrará, apesar de todas as possíveis coisas que podem lhe acontecer, pelo menos um motivo para sorrir no dia? Talvez que faça toda a tristeza ou monotonia do resto do dia valer a pena, ou pelo menos se tornar menos relevante?
Quando eu acordar amanhã, vou olhar no espelho e fazer uma careta, ou me lembrar de alguma coisa realmente estúpida, ou dar uma gargalhada engraçada, só para arrancar de mim o sorriso diário necessário. Não quero soar uma pessoa estranha, antisocial, que não conversa ou ri com as demais. Mas quão chato é ter que depender dos outros? Eu particularmente odeio, não sei você. Imagina - i-ma-gi-na - se eu tivesse que depender dos outros para sorrir, para ser feliz? Tava lascada. Quanto mais eu me torno independente das pessoas, mais eu aprendo a conviver em paz, em harmonia, em alegria com elas. É uma sensação diferente, de só querer estar com alguém pra dividir o quer que você se sinta, mas sem a necessidade sufocante de estar com esse alguém. E digo mais: você passa a enxergar todas essas pessoas com outros olhos. E você passa a descobrir coisas muito mais interessantes (ou não) nelas. E de repente são outras pessoas, e de repente é outro mundo, outro mundo que você vai somar à sua construção, que você vai respirar fundo, que você vai tomar feito coca-cola. É um mundo livre, com novas cores, novos tons e sinfonias.
É um mundo extremamente simples.
E é um mundo cheio de felicidade, dessa que só de pensar que te rodeia, que te abraça..bom, já me arrancou um sorriso enquanto escrevo, não sei como foi aí.

Esse não é um texto com final. Esse é um daqueles textos que você escreve pra si, falando alto, e de repente percebe que precisa dividir, espalhar as boas novas, lançar sementes.
Desses que nunca acaba, porque sempre tem alguém pronto pra acrescentar alguma coisa. Alguém que virá sorrindo, alguém com uma idéia simples na cabeça, alguém com o coração, a alma, o corpo, o espírito, o sei lá o quê aberto pra felicidade. E eu farei questão de acrescentá-lo aqui - o fato dele não ter final não quer dizer que ele está incompleto. Muito menos que está perfeito. Afinal, a gente sempre soma o que nos é dado, certo?
Ceeeeeeeeeeeeeeeerto?

domingo, 14 de março de 2010

Lucy In The Sky With Diamonds

Hoje chove. Hoje não tem estrelas, ou luar.





Ela era como Lucy. Lucy, de Lucy In The Sky With Diamonds. Ela era essa mulher alucinógena. Parecia andar - não, não, flutuar seria uma palavra melhor - no céu estrelado. Pulava de estrela pra estrela, balançava, voltava ao normal, continuava seu caminho. Logo atravessava constelações, galáxias. Interestelar.
Ela ficava do meu lado. Deitados, olhávamos Órion, Touro, Escorpião. Virgem. Lembrava ela, pura, serena. E de repente as constelações se moviam, Gêmeos brincavam, Aquários se derramavam infinitamente, Touro brigava com Leão, Escorpião repousava nas costas de um Capricórnio, Sagitário cavalgava, Peixes nadavam no mar do céu em volta de Virgem, que dançava, rodopiava no pedaço de pano que lhe cubria vagamente. Tinha uma expressão tranquila, e ao mesmo tempo desconcertante. Parecia querer abrir os braços, as mãos, deixar o véu cair. Tinha aqueles olhos famintos, aqueles olhos que fariam qualquer padre ou santo pecar. E ela me olhava, ansiava. Lá no céu, na longitude do infinito, estava Virgem, intocada. Queria se aproximar da Terra, essa Terra mundana, de desejos insaciáveis, de corpos que se atraem e se chocam, de vulgaridade, criminalidade, impetuosidade. Mas não podia - pobre Virgem! Todos a conhecem, a admiram. Mal sabem que o que ela mais quer é ser mais uma Não Virgem terrena. Mais uma alma perdida. Mal sabem que se tivesse uma macieira, não comeria apenas uma maçã, mas subiria nos seus galhos como menina faceira e lá passaria a tarde, a devorar deliciosos pecados vermelhos.
Virgem sentia inveja de Lucy - minha Lucy, é como a chamarei. Pois Lucy, brincalhona, pulava de estrela em estrela, depois saltava de cabeça e de repente estava em meus braços. Nós dois víamos os astros se moverem tão velozes, tão seguros e belos. Dançávamos a dança das estrelas. Cantávamos sua canção silenciosa a plenos pulmões. Nos abraçávamos, e de repente meu sangue era seu sangue, minha respiração andava compassada à dela, não diferenciava meus braços dos seus. Era uma coisa só, eu, ela - e de repente, junto conosco, estava todo o Universo, nos envolvendo, nos balançando suavemente. Abençoados pela Lua - que se mantinha firme, apaixonada pelos apaixonados, mandando beijos à uma Terra que jurara ser eternamente fiel - nos casávamos incontáveis vezes, sem trocar uma palavra, mas gritando juras de amor com os olhos.










Mas hoje não tem estrelas. Não tem lua.

Não tem Lucy.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ana I

Ela era bem mudinha, mesmo. Sentava sempre encostada à parede, perto da porta. Mas nunca dormia. Só ficava ali, a cabeça encostada na parede, o rosto pousado na mão. Sempre que chegava ela estava lá. Assim que batia o sinal ela ia embora. Era gente fina, sempre ajudava os que a perguntavam qualquer coisa, vez em sempre ajudava nas arrecadações de dinheiro para a turma - apesar de nunca tê-la visto em uma festa ou saída do grupo. Não era deslocada. Não era excluída. Era assim, meio...nada.
Demorei para notá-la - mais de um ano, na verdade. Nossa sala tinha mais de 50 alunos, e ela sempre ficava do outro lado da sala. Até o dia que me atrasei e um dos poucos lugares restantes era ao seu lado. Levei um susto com aquela figurinha, tão pequena que me perguntei se as pessoas já tropeçaram nela. O cabelo era longo, preso no rabo-de-cavalo feito de qualquer jeito; óculos grandes, com as hastes grossas, que em nada combinavam com seu rosto, mas lhe caíam particularmente bem, destacando olhos verdes como o quadro negro, que ela sempre encarava, às vezes atenta, outras vezes completamente avoada. Até hoje não sei o que tanto pensava nessas horas.
Comecei a me interessar por aquela menina, com uma curiosidade boba de quem não tem muito mais o que fazer - Ana, era seu nome. Como outras tantas Anas na sala. Passei a me sentar perto dela, o que ela prontamente notou, me olhando com o canto do olho com uma desconfiança que me divertia. No 4º dia, notei algo diferente: Ana não estava com a cabeça na parede. Estava sentada com uma postura rígida, o rabo-de-cavalo agora se prendia firmemente no meio do couro cabeludo, os olhos olhavam do quadro para o relógio ao alto para o quadro para o relógio ao alto para o quadro com uma velocidade que me deixaria tonto caso tentasse. O professor concluiu a matéria, pegou seu material, saiu da sala. Ana agora tamborilava os dedos na mesa, vez em quando mexia a perna cruzada. Continuava olhando para o quadro, não parecia nervosa, só...ansiosa. Com o quê?, eu me perguntei até a hora que ela entrou na sala.
Ela, a professora de Filosofia. Não era bonita, não era jovem, não era o tipo de ninguém. Mesmo assim Ana a olhava com um fascínio indescritível, quase sorriu quando ela disse seu usual 'Bom dia' à turma. Fiquei realmente desconfiado das intenções de Ana, mas ela não alterou seu estado até a aula realmente começar.
Era outra pessoa. A Ana de filosofia não era a Ana de história, ou biologia, ou matemática. A Ana de filosofia sabia todas as respostas, acompanhava com simplicidade e destreza todo o raciocínio lógico da professora e até arriscava um sorriso quando alguma idéia lhe parecia absurda. Seu sorriso era algo extremamente delicado, como se fosse desmontar ao toque. Fiquei genuinamente fascinado, o que me fez olhá-la mais um pouco - mais do que qualquer educação ou sutileza permitiriam. Durante algum tempo Ana não notou meus olhos sobre seu rosto - estava muito mais interessada sobre a teoria do eterno qualquer coisa, argumentando enquanto movia o lápis pronto para a próxima anotação. Sua voz parecia confiante (mesmo não fazendo idéia do que falava), como se aquilo fosse seu perímetro, seu mundo, seu quarto. Seus lábios pareciam...fiquei ali, contemplando-a, até que ela concluiu sua longa cadeia de pensamentos. Quando terminou, me percebeu. Abaixou a cabeça, ruborizou. Achei aquilo lindo, de tal graciosidade que eu não via há muito. Sorri para ela, ela não me encarava. Levantou a cabeça devagar, voltou a fitar o quadro, mas não olhava-o do mesmo jeito. Olhava aflita, sabia o que encontraria ao olhar pro lado. Mordia o lábio num canto que me deu vontade de morder também, o que me fez soltar um leve suspiro. Naquela sala gigantesca, o que era um suspiro? Provavelmente um suspiro de cansaço. De tédio. De pensamento longe. Mas não era. Ela sentiu que não era, e eu sabia o que era.
Estava me apaixonando. Não por qualquer Ana. Não pela Ana.
Pela Ana de Filosofia.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Carta ao amor

Eu não sou boa em me explicar. Nunca fui nem nunca serei. Mas tem uma razão preu gritar, preu espernear, pros meus ciúmes e meus lamentos. Existe, meu bem, uma razão pras minhas mudanças de humor, para eu te querer tão bem às vezes e tão longe outras. Pra eu te xingar enquanto te abraço, e dizer que não quero mais te ver enquanto te faço meus carinhos. Pra eu te morder quando te beijo. Pra não te servir comida à mesa. Pra sair com meus amigos sem dizer aonde vou, e até pra dançar com outros. Outros não tem o mesmo balanço, a mesma ginga que você. Não dançam no mesmo compasso. Não têm o mesmo ritmo, o mesmo embalo que me aperta o coração e arrepia a alma.
Existe uma razão. Pode não ser a melhor do mundo, mas é a única que tenho - e acredite quando digo ser a verdadeira.
A razão, meu bem, é que eu te amo. Perdoe parecer clichê, mas é isso que eu sinto por ti. Mais até do que gostaria de sentir, menos do que realmente sinto - mas creio ser a única palavra que defina esse gosto desgostado, esse mexe remexe na minha cabeça, esse grito insano na garganta. Eu tento, de verdade, gostar menos de ti. Tento me desapegar, não mergulhar tão fundo, mas fico louca com a possibilidade de te perder. E é assim que essa loucura se manifesta - em tentativas vãs de te afastar de mim. Peço-lhe compreensão. Compreensão e paciência, pra aturar meus devaneios, pra segurar minha mão mesmo que eu lhe peça para soltar. Tenho medo que soltes da minha mão, que me deixe livre - tenho medo da liberdade. Quero estar presa sempre, presa à teu sorriso, à teus beijos e à teus abraços.
Perdoa se um dia te magoei, se um dia te machuquei, se um dia ofendi tua mãe, teus irmãos, teu cachorro, teu periquito e teu papagaio. Não quis dizer nada disso com verdade ou com vontade. A única verdade, meu bem, é que não sou nada sem você. Gosto de ser essa coisa que sou do seu lado, e essa é minha única vontade. De continuar sendo essa coisa que sou contigo, de continuar sentindo essa coisa gostosa quando penso em você, de pensar em você quando durmo, quando acordo, quando entro no computador, quando ouço música, quando tomo banho, quando quando quando, quando tudo. Quero escrever poemas sobre nosso amor, músicas sobre nossa vida, inventar perfumes que lembrem nossos momentos. Quero continuar discutindo contigo sobre qual filme alugar, qual comida pedir, qual praia ir e outras coisas bobas que sempre acabam na cama, nesse misto de força e doçura que só a gente entende. Não quero medir forças contigo, quero ser a sua força, porque tu és a minha. Um dia vamos brigar sobre o nome dos nosso filhos, que escola eles devam ir, quem é o responsável por ele ter batido no coleguinha que o chamou de bobão. Um dia vamos vê-los se casando, um dia vamos ter nosso álbum de memórias mais cheio que a Biblioteca Nacional, um dia dormiremos abraçados e não acordaremos mais. Viveremos pra sempre - eu te batendo, você me aturando, porque assim que terá que ser - só eu, você e todo esse rio selvagem de amor que ameaça transbordar sempre que sinto sua pele tocando a minha.

Luz do Sol.

Ele acordou com a cabeça rodando. "Última vez que bebo", pensou. Bobagem, devia ser a vigésima vez que ele pensava isso só naquele mês. Foi direto pro banheiro, vomitou, descarga, urina, descarga, abre a torneira, água no rosto, se olhou no espelho. Seus olhos pareciam fundos, sombras negras os circundavam, seu rosto parecia 30 anos mais velho do que realmente era. A cabeça latejava, nem se lembrava do que bebera na noite passada. Foi à cozinha, bebeu uns bons 4 copos d'água, olhou pro relógio na parede: 13:52h. "Estranho". Era pra ter alguma comida na mesa, ou pelo menos na geladeira, pronta para ser esquentada. Mas não havia nada, nada. Voltou ao quarto, pegou um comprimido qualquer na cabeceira, tomou, sentou na beirada da cama. Agora desperto, olhou em volta. Tudo parecia igual, mas ele notava nítidamente a diferença. O lado esquerdo da cama não estava tão amassado como deveria estar, as cortinas não foram abertas com um estardalhaço, o quarto parecia todo sem luz, sem vida. Onde estava o sol daquele quarto? Onde?
Foi até a sala, parou. Tomou um segundo para visualizar o quadro geral. As cadeiras da mesa central não estavam nos lugares. As almofadas do sofá estavam no chão. O quadro parecia estranhamente torto. No canto, perto do telefone, ao chão, jazia um copo quebrado. Respirou fundo, mas logo se acalmou - não havia sangue perto dele. Faltava uma garrafa na sua coleção, tinha certeza que não a bebera - ela deve ter jogado fora, ou levado consigo pra onde quer que tenha ido.
Devagar, pegou as almofadas no chão, colocou-as de volta. Consertou o quadro, colocou as cadeiras no lugar. Andou até a cozinha, pegou a vassoura, foi até o copo quebrado. Ao se abaixar, viu um papel dobrado perto do telefone. Deixou a vassoura na parede, pegou o pequeno papel amarelo, abriu. Numa letra trêmula, corrida, simples, ela escrevera uma palavra. Uma única palavra.

"Acabou."

Atordoado, sentou no sofá, olhou pras almofadas, depois pra cortina. Pensou em abrí-las, deixar a manhã entrar. Mas pra quê? Pra quê?
O Sol se fora. Acabou.