Hoje chove. Hoje não tem estrelas, ou luar.
Ela era como Lucy. Lucy, de Lucy In The Sky With Diamonds. Ela era essa mulher alucinógena. Parecia andar - não, não, flutuar seria uma palavra melhor - no céu estrelado. Pulava de estrela pra estrela, balançava, voltava ao normal, continuava seu caminho. Logo atravessava constelações, galáxias. Interestelar.
Ela ficava do meu lado. Deitados, olhávamos Órion, Touro, Escorpião. Virgem. Lembrava ela, pura, serena. E de repente as constelações se moviam, Gêmeos brincavam, Aquários se derramavam infinitamente, Touro brigava com Leão, Escorpião repousava nas costas de um Capricórnio, Sagitário cavalgava, Peixes nadavam no mar do céu em volta de Virgem, que dançava, rodopiava no pedaço de pano que lhe cubria vagamente. Tinha uma expressão tranquila, e ao mesmo tempo desconcertante. Parecia querer abrir os braços, as mãos, deixar o véu cair. Tinha aqueles olhos famintos, aqueles olhos que fariam qualquer padre ou santo pecar. E ela me olhava, ansiava. Lá no céu, na longitude do infinito, estava Virgem, intocada. Queria se aproximar da Terra, essa Terra mundana, de desejos insaciáveis, de corpos que se atraem e se chocam, de vulgaridade, criminalidade, impetuosidade. Mas não podia - pobre Virgem! Todos a conhecem, a admiram. Mal sabem que o que ela mais quer é ser mais uma Não Virgem terrena. Mais uma alma perdida. Mal sabem que se tivesse uma macieira, não comeria apenas uma maçã, mas subiria nos seus galhos como menina faceira e lá passaria a tarde, a devorar deliciosos pecados vermelhos.
Virgem sentia inveja de Lucy - minha Lucy, é como a chamarei. Pois Lucy, brincalhona, pulava de estrela em estrela, depois saltava de cabeça e de repente estava em meus braços. Nós dois víamos os astros se moverem tão velozes, tão seguros e belos. Dançávamos a dança das estrelas. Cantávamos sua canção silenciosa a plenos pulmões. Nos abraçávamos, e de repente meu sangue era seu sangue, minha respiração andava compassada à dela, não diferenciava meus braços dos seus. Era uma coisa só, eu, ela - e de repente, junto conosco, estava todo o Universo, nos envolvendo, nos balançando suavemente. Abençoados pela Lua - que se mantinha firme, apaixonada pelos apaixonados, mandando beijos à uma Terra que jurara ser eternamente fiel - nos casávamos incontáveis vezes, sem trocar uma palavra, mas gritando juras de amor com os olhos.
Mas hoje não tem estrelas. Não tem lua.
Não tem Lucy.
domingo, 14 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
Ana I
Ela era bem mudinha, mesmo. Sentava sempre encostada à parede, perto da porta. Mas nunca dormia. Só ficava ali, a cabeça encostada na parede, o rosto pousado na mão. Sempre que chegava ela estava lá. Assim que batia o sinal ela ia embora. Era gente fina, sempre ajudava os que a perguntavam qualquer coisa, vez em sempre ajudava nas arrecadações de dinheiro para a turma - apesar de nunca tê-la visto em uma festa ou saída do grupo. Não era deslocada. Não era excluída. Era assim, meio...nada.
Demorei para notá-la - mais de um ano, na verdade. Nossa sala tinha mais de 50 alunos, e ela sempre ficava do outro lado da sala. Até o dia que me atrasei e um dos poucos lugares restantes era ao seu lado. Levei um susto com aquela figurinha, tão pequena que me perguntei se as pessoas já tropeçaram nela. O cabelo era longo, preso no rabo-de-cavalo feito de qualquer jeito; óculos grandes, com as hastes grossas, que em nada combinavam com seu rosto, mas lhe caíam particularmente bem, destacando olhos verdes como o quadro negro, que ela sempre encarava, às vezes atenta, outras vezes completamente avoada. Até hoje não sei o que tanto pensava nessas horas.
Comecei a me interessar por aquela menina, com uma curiosidade boba de quem não tem muito mais o que fazer - Ana, era seu nome. Como outras tantas Anas na sala. Passei a me sentar perto dela, o que ela prontamente notou, me olhando com o canto do olho com uma desconfiança que me divertia. No 4º dia, notei algo diferente: Ana não estava com a cabeça na parede. Estava sentada com uma postura rígida, o rabo-de-cavalo agora se prendia firmemente no meio do couro cabeludo, os olhos olhavam do quadro para o relógio ao alto para o quadro para o relógio ao alto para o quadro com uma velocidade que me deixaria tonto caso tentasse. O professor concluiu a matéria, pegou seu material, saiu da sala. Ana agora tamborilava os dedos na mesa, vez em quando mexia a perna cruzada. Continuava olhando para o quadro, não parecia nervosa, só...ansiosa. Com o quê?, eu me perguntei até a hora que ela entrou na sala.
Ela, a professora de Filosofia. Não era bonita, não era jovem, não era o tipo de ninguém. Mesmo assim Ana a olhava com um fascínio indescritível, quase sorriu quando ela disse seu usual 'Bom dia' à turma. Fiquei realmente desconfiado das intenções de Ana, mas ela não alterou seu estado até a aula realmente começar.
Era outra pessoa. A Ana de filosofia não era a Ana de história, ou biologia, ou matemática. A Ana de filosofia sabia todas as respostas, acompanhava com simplicidade e destreza todo o raciocínio lógico da professora e até arriscava um sorriso quando alguma idéia lhe parecia absurda. Seu sorriso era algo extremamente delicado, como se fosse desmontar ao toque. Fiquei genuinamente fascinado, o que me fez olhá-la mais um pouco - mais do que qualquer educação ou sutileza permitiriam. Durante algum tempo Ana não notou meus olhos sobre seu rosto - estava muito mais interessada sobre a teoria do eterno qualquer coisa, argumentando enquanto movia o lápis pronto para a próxima anotação. Sua voz parecia confiante (mesmo não fazendo idéia do que falava), como se aquilo fosse seu perímetro, seu mundo, seu quarto. Seus lábios pareciam...fiquei ali, contemplando-a, até que ela concluiu sua longa cadeia de pensamentos. Quando terminou, me percebeu. Abaixou a cabeça, ruborizou. Achei aquilo lindo, de tal graciosidade que eu não via há muito. Sorri para ela, ela não me encarava. Levantou a cabeça devagar, voltou a fitar o quadro, mas não olhava-o do mesmo jeito. Olhava aflita, sabia o que encontraria ao olhar pro lado. Mordia o lábio num canto que me deu vontade de morder também, o que me fez soltar um leve suspiro. Naquela sala gigantesca, o que era um suspiro? Provavelmente um suspiro de cansaço. De tédio. De pensamento longe. Mas não era. Ela sentiu que não era, e eu sabia o que era.
Estava me apaixonando. Não por qualquer Ana. Não pela Ana.
Pela Ana de Filosofia.
Demorei para notá-la - mais de um ano, na verdade. Nossa sala tinha mais de 50 alunos, e ela sempre ficava do outro lado da sala. Até o dia que me atrasei e um dos poucos lugares restantes era ao seu lado. Levei um susto com aquela figurinha, tão pequena que me perguntei se as pessoas já tropeçaram nela. O cabelo era longo, preso no rabo-de-cavalo feito de qualquer jeito; óculos grandes, com as hastes grossas, que em nada combinavam com seu rosto, mas lhe caíam particularmente bem, destacando olhos verdes como o quadro negro, que ela sempre encarava, às vezes atenta, outras vezes completamente avoada. Até hoje não sei o que tanto pensava nessas horas.
Comecei a me interessar por aquela menina, com uma curiosidade boba de quem não tem muito mais o que fazer - Ana, era seu nome. Como outras tantas Anas na sala. Passei a me sentar perto dela, o que ela prontamente notou, me olhando com o canto do olho com uma desconfiança que me divertia. No 4º dia, notei algo diferente: Ana não estava com a cabeça na parede. Estava sentada com uma postura rígida, o rabo-de-cavalo agora se prendia firmemente no meio do couro cabeludo, os olhos olhavam do quadro para o relógio ao alto para o quadro para o relógio ao alto para o quadro com uma velocidade que me deixaria tonto caso tentasse. O professor concluiu a matéria, pegou seu material, saiu da sala. Ana agora tamborilava os dedos na mesa, vez em quando mexia a perna cruzada. Continuava olhando para o quadro, não parecia nervosa, só...ansiosa. Com o quê?, eu me perguntei até a hora que ela entrou na sala.
Ela, a professora de Filosofia. Não era bonita, não era jovem, não era o tipo de ninguém. Mesmo assim Ana a olhava com um fascínio indescritível, quase sorriu quando ela disse seu usual 'Bom dia' à turma. Fiquei realmente desconfiado das intenções de Ana, mas ela não alterou seu estado até a aula realmente começar.
Era outra pessoa. A Ana de filosofia não era a Ana de história, ou biologia, ou matemática. A Ana de filosofia sabia todas as respostas, acompanhava com simplicidade e destreza todo o raciocínio lógico da professora e até arriscava um sorriso quando alguma idéia lhe parecia absurda. Seu sorriso era algo extremamente delicado, como se fosse desmontar ao toque. Fiquei genuinamente fascinado, o que me fez olhá-la mais um pouco - mais do que qualquer educação ou sutileza permitiriam. Durante algum tempo Ana não notou meus olhos sobre seu rosto - estava muito mais interessada sobre a teoria do eterno qualquer coisa, argumentando enquanto movia o lápis pronto para a próxima anotação. Sua voz parecia confiante (mesmo não fazendo idéia do que falava), como se aquilo fosse seu perímetro, seu mundo, seu quarto. Seus lábios pareciam...fiquei ali, contemplando-a, até que ela concluiu sua longa cadeia de pensamentos. Quando terminou, me percebeu. Abaixou a cabeça, ruborizou. Achei aquilo lindo, de tal graciosidade que eu não via há muito. Sorri para ela, ela não me encarava. Levantou a cabeça devagar, voltou a fitar o quadro, mas não olhava-o do mesmo jeito. Olhava aflita, sabia o que encontraria ao olhar pro lado. Mordia o lábio num canto que me deu vontade de morder também, o que me fez soltar um leve suspiro. Naquela sala gigantesca, o que era um suspiro? Provavelmente um suspiro de cansaço. De tédio. De pensamento longe. Mas não era. Ela sentiu que não era, e eu sabia o que era.
Estava me apaixonando. Não por qualquer Ana. Não pela Ana.
Pela Ana de Filosofia.
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