sexta-feira, 21 de maio de 2010

Comme Si De Rien N'Était

Ele saiu do carro. Bateu a porta, assistiu o carro amarelo dobrar a esquina, desaparecer na rua. Ficou parado ali um tempo, com a sensação de ainda estar olhando o táxi.
Suspirou. Entrou no prédio, apertou o botão do elevador, se olhou no espelho. De alguma forma, estava agitado, nervoso, alterado; por outro lado, seus olhos mostravam um descompasso, como se não estivesse ali, como se não pertencesse àquele momento. Meteu a mão no bolso, tirou o molho de chaves, saiu do elevador. Parou em frente à porta.
E agora? Se preparara milhares de vezes para aquele momento, treinou no espelho com vozes, olhares, gestos. "Não posso pedir desculpas, as coisas são assim". "Não é você, somos nós dois..não, não existe outra, acredite em mim". Não era fácil. Passara alguns anos com ela, de uma hora pra outra iria simplismente passar por aquela porta e dizer que não a amava mais. Ia olhar nos olhos dela e dizer que a relação se desgastou por pequenas coisas, pequenas briguinhas, ciúmes bobos, um copo colocado fora do porta copos que manchou a mesa da sala, o jogo que ele assistiu no único domingo que tinham juntos. Ia ver seus olhos se enchendo de lágrimas, a fala se prendendo na garganta. Sabia que na hora teria uma reação diferente, não ia simplismente vê-la desmoronar. Sua pele branca, macia, que se arrepiava quando o tocava, ia ficar vermelha, o olhar desesperado iria consumí-lo. Mas precisava ser forte. Precisava aceitar. Precisava seguir em frente.
Chega uma hora que acaba, simples assim. As coisas não foram feitas pra durarem a eternidade, ambos sabiam disso. Ele sabia que ia ser uma coisa um tanto quanto imprevisível. Até mês passado ambos acabavam as ligações com um 'Eu te amo' tão normal quanto um 'tchau'. Talvez tenha sido isso, talvez tenha ficado banal demais. Até mês passado ele a considerava essencial, até mês passado ele não poderia viver sem ela. Ela a completava, o fazia um homem inteiro.
E então ele se deu conta - e já era hora, diga-se de passagem - que não é assim que funciona. Ele percebeu que não precisava de uma metade de laranja, de uma tampa de panela. Ele se deu conta que já nascera completo. Que as pessoas não nos completam, nos somam. Nós nos juntamos à alguém, aprendemos, crescemos. E chega uma hora que não há mais o que aprender desse relacionamento, é hora de seguir em frente. Não é motivo de lamento. Ousaria dizer que é motivo de certa alegria, depois da óbvia tristeza de não ter mais o outro ao seu lado. Alegria por conseguir ter tantos bons momentos com outra pessoa, ter tantas coisas boas acumuladas, ter aprendido tanto, ter extraído tanto conhecimento (mesmo que a outra pessoa não faça idéia do que fez) nesse período que não tem nem mais nada para ser dado. Só. Sem dor, sem hurt feelings. Apenas duas pessoas que, por sorte do destino se cruzaram, deram as mãos, sorriram e choraram juntas, se apoiavam, andaram bom pedaço da estrada e agora seguirão caminhos distintos. Encontrarão novos apoios. Aprenderão novas coisas, continuarão a sorrir e chorar. Talvez se unissem novamente, mas não era hora de pensar nisso, de jogar essa semente. Ela não precisava de esperança, de sonhos. Precisava aceitar a realidade do jeito que ela é, sem temer a solidão, sem temer o vazio que ficaria do lado dele da cama, a cadeira sem prato e talher na hora da janta e os telefonemas detalhando o dia.
Encarou os números do apartamento, talvez pela última vez. Brincou com as chaves, um, dois, três minutos, o tempo corria, já passara da hora. Escolheu a chave certa, colocou na fechadura, ouviu o cachorro anunciando sua chegada, impaciente para ver a pessoa do outro lado, anunciando sua chegada. Não tinha mais jeito.
Respirou fundo.

E entrou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário