quinta-feira, 4 de março de 2010

Ana I

Ela era bem mudinha, mesmo. Sentava sempre encostada à parede, perto da porta. Mas nunca dormia. Só ficava ali, a cabeça encostada na parede, o rosto pousado na mão. Sempre que chegava ela estava lá. Assim que batia o sinal ela ia embora. Era gente fina, sempre ajudava os que a perguntavam qualquer coisa, vez em sempre ajudava nas arrecadações de dinheiro para a turma - apesar de nunca tê-la visto em uma festa ou saída do grupo. Não era deslocada. Não era excluída. Era assim, meio...nada.
Demorei para notá-la - mais de um ano, na verdade. Nossa sala tinha mais de 50 alunos, e ela sempre ficava do outro lado da sala. Até o dia que me atrasei e um dos poucos lugares restantes era ao seu lado. Levei um susto com aquela figurinha, tão pequena que me perguntei se as pessoas já tropeçaram nela. O cabelo era longo, preso no rabo-de-cavalo feito de qualquer jeito; óculos grandes, com as hastes grossas, que em nada combinavam com seu rosto, mas lhe caíam particularmente bem, destacando olhos verdes como o quadro negro, que ela sempre encarava, às vezes atenta, outras vezes completamente avoada. Até hoje não sei o que tanto pensava nessas horas.
Comecei a me interessar por aquela menina, com uma curiosidade boba de quem não tem muito mais o que fazer - Ana, era seu nome. Como outras tantas Anas na sala. Passei a me sentar perto dela, o que ela prontamente notou, me olhando com o canto do olho com uma desconfiança que me divertia. No 4º dia, notei algo diferente: Ana não estava com a cabeça na parede. Estava sentada com uma postura rígida, o rabo-de-cavalo agora se prendia firmemente no meio do couro cabeludo, os olhos olhavam do quadro para o relógio ao alto para o quadro para o relógio ao alto para o quadro com uma velocidade que me deixaria tonto caso tentasse. O professor concluiu a matéria, pegou seu material, saiu da sala. Ana agora tamborilava os dedos na mesa, vez em quando mexia a perna cruzada. Continuava olhando para o quadro, não parecia nervosa, só...ansiosa. Com o quê?, eu me perguntei até a hora que ela entrou na sala.
Ela, a professora de Filosofia. Não era bonita, não era jovem, não era o tipo de ninguém. Mesmo assim Ana a olhava com um fascínio indescritível, quase sorriu quando ela disse seu usual 'Bom dia' à turma. Fiquei realmente desconfiado das intenções de Ana, mas ela não alterou seu estado até a aula realmente começar.
Era outra pessoa. A Ana de filosofia não era a Ana de história, ou biologia, ou matemática. A Ana de filosofia sabia todas as respostas, acompanhava com simplicidade e destreza todo o raciocínio lógico da professora e até arriscava um sorriso quando alguma idéia lhe parecia absurda. Seu sorriso era algo extremamente delicado, como se fosse desmontar ao toque. Fiquei genuinamente fascinado, o que me fez olhá-la mais um pouco - mais do que qualquer educação ou sutileza permitiriam. Durante algum tempo Ana não notou meus olhos sobre seu rosto - estava muito mais interessada sobre a teoria do eterno qualquer coisa, argumentando enquanto movia o lápis pronto para a próxima anotação. Sua voz parecia confiante (mesmo não fazendo idéia do que falava), como se aquilo fosse seu perímetro, seu mundo, seu quarto. Seus lábios pareciam...fiquei ali, contemplando-a, até que ela concluiu sua longa cadeia de pensamentos. Quando terminou, me percebeu. Abaixou a cabeça, ruborizou. Achei aquilo lindo, de tal graciosidade que eu não via há muito. Sorri para ela, ela não me encarava. Levantou a cabeça devagar, voltou a fitar o quadro, mas não olhava-o do mesmo jeito. Olhava aflita, sabia o que encontraria ao olhar pro lado. Mordia o lábio num canto que me deu vontade de morder também, o que me fez soltar um leve suspiro. Naquela sala gigantesca, o que era um suspiro? Provavelmente um suspiro de cansaço. De tédio. De pensamento longe. Mas não era. Ela sentiu que não era, e eu sabia o que era.
Estava me apaixonando. Não por qualquer Ana. Não pela Ana.
Pela Ana de Filosofia.

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