segunda-feira, 28 de setembro de 2009
- Guy de Maupassant, em "Uma Vida"
Não era assim que as coisas deveriam ter acontecido.
Quando pela manhã, me admirava com a maneira que o sol reluzia sobre as copas das árvores, e como toda a natureza parecia se manter serena e...completa.
Ledo engano.
Pela noite, me deparei com um torpor que mal me lembrava poder me dominar; eu nem sequer me lembro do transcorrer da tarde. Eu nem me lembrava de como era sentir os olhos doerem com a possibilidade das lágrimas; eu não me lembrava do que era se sentir tão impotente, eu não me lembrava do que era ter tantos amigos à sua volta te olhando preocupados, como se alguém tivesse...ido.
É ultrajante, um insulto à toda a existência e o que ela significa pro mundo que uma vida possa ser retirada de maneira tão bruta e covarde e que haja uma explicação razoável para isso. No entanto, é mais insultante ainda pensar que vidas são um pequeno jogo de apostas, e que só por estarmos nelas já estamos rolando os dados.
Em all in.
Não há o quê, ou quem culpar. Pelo menos eu não consigo pensar em nenhum ente o qual eu possa apontar meu dedo e desejar-lhe o mal.
Não.
Agora me parece simplismente inaceitável levar as coisas, seguir em frente, tocar a vida. Me parece repugnante buscar a felicidade, quando eu sei que há pessoas chorando, e esse choro de dor, de raiva, de uma tristeza que eu sei que não terá fim chega à mim como um velho amigo, me abraçando, me envolvendo em seu ritmo lento de melancolia.
Mas eu sei que uma hora essa ferida cicatrizará.
Eu espero, pelo menos.
Ela sempre estará lá, cravada em meu peito.
Mas eventualmente a dor irá diminuir. E eu preciso que ela diminua, preciso reerguer para dar a mão aos que não vêem como se levantar do chão.
E, quem sabe..quando isso acontecer, eu talvez consiga olhar pra cima novamente e contemplar as copas cintilantes das árvores.
E, quando isso acontecer, a brisa que cobrirá meu rosto não trará só o frescor do tempo.
Trará o frescor de uma nova página em mim.
"A dor é inevitável. O sofrimento é opcional." (Drummond)
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Ciclo Vicioso
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Le fuite
E foi assim que eu saí de lá, apavorada comigo mesma por ser tão medrosa, tão pateticamente covarde. Mas não é como se eu pudesse escolher. Me enfiei no meio da multidão, louca para não ser reconhecida enquanto pensava o que iria fazer, pra onde iria, ao mesmo tempo que tentava não tropeçar na calçada, nos pés alheios e, principalmente, em mim mesma.
Eu precisava sair dali. Não exatamente dali, mas de tudo. Não é exatamente fácil, mas eu precisava tentar. Me enfiar num buraco, e só sair quando a tempestade que era a minha vida se acalmasse - o que era menos fácil ainda.
Saí.
Grandes coisas.
Veja bem, você pode correr o quanto quiser. Pode ir pra onde quiser, pode usar o que quiser. Mas correndo pra onde quer que seja, quem você é estará sempre grudado a ti, como uma segunda pele, como um outro alguém em frente ao espelho que, quanto menos você o encara firme, menos se reconhece. E é assim que se forma o caos dentro da gente, acho: Quando nos esquivamos por tanto tempo de nossas mudanças e, quando se vê, já nos perdemos. E como voltar?
Sei lá.
Mas voltando a mim, que é o que interessa.
Saí.
Sem avisar ninguém, sem grandes planos, sem grandes metas. Eu, a estrada, a música, as árvores passando rápido demais para poder separá-las, o vento gelado se alojando em mim. Eu, as ladeiras de terra, as flores, as amoras, os amores - pequenos e grandes. Eu, os pássaros, os vira-latas, vira-terra, vira-a gente. Eu, os abraços, os risos, a expontaneidade. Eu, eu, eu. Eu, o centro de mim, o centro do meu próprio universo. Como eu pude me enganar por todo esse tempo? Podem haver quantos problemas quiser, eu ainda sou dona da minha razão, ainda é com essas pernas que eu trilho meu caminho.
Eu não fugi dos meus problemas, no final das contas. Eles permaneceram em mim. Não são os problemas que nos deixam com dor de cabeça, com insônia, com vontade de fugir. É esse caos covarde que implantamos em nós mesmos; nós, tão sem paz, fazemos um esforço tão grande para enxergar cada vez mais além, que simplismente esquecemos nosso ponto de partida.
