Hoje chove. Hoje não tem estrelas, ou luar.
Ela era como Lucy. Lucy, de Lucy In The Sky With Diamonds. Ela era essa mulher alucinógena. Parecia andar - não, não, flutuar seria uma palavra melhor - no céu estrelado. Pulava de estrela pra estrela, balançava, voltava ao normal, continuava seu caminho. Logo atravessava constelações, galáxias. Interestelar.
Ela ficava do meu lado. Deitados, olhávamos Órion, Touro, Escorpião. Virgem. Lembrava ela, pura, serena. E de repente as constelações se moviam, Gêmeos brincavam, Aquários se derramavam infinitamente, Touro brigava com Leão, Escorpião repousava nas costas de um Capricórnio, Sagitário cavalgava, Peixes nadavam no mar do céu em volta de Virgem, que dançava, rodopiava no pedaço de pano que lhe cubria vagamente. Tinha uma expressão tranquila, e ao mesmo tempo desconcertante. Parecia querer abrir os braços, as mãos, deixar o véu cair. Tinha aqueles olhos famintos, aqueles olhos que fariam qualquer padre ou santo pecar. E ela me olhava, ansiava. Lá no céu, na longitude do infinito, estava Virgem, intocada. Queria se aproximar da Terra, essa Terra mundana, de desejos insaciáveis, de corpos que se atraem e se chocam, de vulgaridade, criminalidade, impetuosidade. Mas não podia - pobre Virgem! Todos a conhecem, a admiram. Mal sabem que o que ela mais quer é ser mais uma Não Virgem terrena. Mais uma alma perdida. Mal sabem que se tivesse uma macieira, não comeria apenas uma maçã, mas subiria nos seus galhos como menina faceira e lá passaria a tarde, a devorar deliciosos pecados vermelhos.
Virgem sentia inveja de Lucy - minha Lucy, é como a chamarei. Pois Lucy, brincalhona, pulava de estrela em estrela, depois saltava de cabeça e de repente estava em meus braços. Nós dois víamos os astros se moverem tão velozes, tão seguros e belos. Dançávamos a dança das estrelas. Cantávamos sua canção silenciosa a plenos pulmões. Nos abraçávamos, e de repente meu sangue era seu sangue, minha respiração andava compassada à dela, não diferenciava meus braços dos seus. Era uma coisa só, eu, ela - e de repente, junto conosco, estava todo o Universo, nos envolvendo, nos balançando suavemente. Abençoados pela Lua - que se mantinha firme, apaixonada pelos apaixonados, mandando beijos à uma Terra que jurara ser eternamente fiel - nos casávamos incontáveis vezes, sem trocar uma palavra, mas gritando juras de amor com os olhos.
Mas hoje não tem estrelas. Não tem lua.
Não tem Lucy.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário