segunda-feira, 28 de setembro de 2009

"Os dias que se seguiram foram de muita tristeza, dias tépidos de um lar que parece vazio pela falta do ser familiar que sumiu para sempre, dias de sofrimento ao encontrarmos cada objeto que lembra a pessoa falecida. A todo o momento uma saudade revive em nosso coração para torturá-lo. Aqui uma cadeira, o guarda-chuva deixado na sala de espera, seu copo que a criada deixou de retirar! E em todos os cômodos encontram-se coisas esparsas: suas tesouras, uma luva, um livro cujas folhas foram viradas por seus dedos, um grande número de pequenas coisas que assumem um significado doloroso, porque lembram mil pequenos acontecimentos."

- Guy de Maupassant, em "Uma Vida"



Não era assim que as coisas deveriam ter acontecido.
Quando pela manhã, me admirava com a maneira que o sol reluzia sobre as copas das árvores, e como toda a natureza parecia se manter serena e...completa.
Ledo engano.
Pela noite, me deparei com um torpor que mal me lembrava poder me dominar; eu nem sequer me lembro do transcorrer da tarde. Eu nem me lembrava de como era sentir os olhos doerem com a possibilidade das lágrimas; eu não me lembrava do que era se sentir tão impotente, eu não me lembrava do que era ter tantos amigos à sua volta te olhando preocupados, como se alguém tivesse...ido.


É ultrajante, um insulto à toda a existência e o que ela significa pro mundo que uma vida possa ser retirada de maneira tão bruta e covarde e que haja uma explicação razoável para isso. No entanto, é mais insultante ainda pensar que vidas são um pequeno jogo de apostas, e que só por estarmos nelas já estamos rolando os dados.
Em all in.


Não há o quê, ou quem culpar. Pelo menos eu não consigo pensar em nenhum ente o qual eu possa apontar meu dedo e desejar-lhe o mal.
Não.
Agora me parece simplismente inaceitável levar as coisas, seguir em frente, tocar a vida. Me parece repugnante buscar a felicidade, quando eu sei que há pessoas chorando, e esse choro de dor, de raiva, de uma tristeza que eu sei que não terá fim chega à mim como um velho amigo, me abraçando, me envolvendo em seu ritmo lento de melancolia.
Mas eu sei que uma hora essa ferida cicatrizará.
Eu espero, pelo menos.
Ela sempre estará lá, cravada em meu peito.
Mas eventualmente a dor irá diminuir. E eu preciso que ela diminua, preciso reerguer para dar a mão aos que não vêem como se levantar do chão.
E, quem sabe..quando isso acontecer, eu talvez consiga olhar pra cima novamente e contemplar as copas cintilantes das árvores.
E, quando isso acontecer, a brisa que cobrirá meu rosto não trará só o frescor do tempo.
Trará o frescor de uma nova página em mim.

"A dor é inevitável. O sofrimento é opcional." (Drummond)

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