Chega uma hora na sua vida - e, acredite, ninguém percebe - que você se pergunta como será o dia de amanhã. Você se pergunta o que será quando crescer, se aquele menino vai falar com você, se você vai ganhar o brinquedo no natal. É estranho, muito estranho, como, subitamente, você passa a visualizar, a projetar o dia seguinte.
É por isso que eu gosto delas, das crianças. Elas não se preocupam com o que vão vestir, comer ou usar. Elas não se preocupam com consequências, com moral. Digo, elas têm consciência do que fazem, sabem que vão levar bronca, mas elas simplismente não pensam na hora, não se importam. Nós, que nos julgamos tão maduros, somos iguais a elas em uma infinidade de sentidos: nós sabemos os efeitos de nossos atos, mas fingimos surpresa com eles. Nós sabemos dos riscos, mas andamos na corda bamba mesmo assim. Nós magoamos os outros e tentamos desesperadamente nos livrarmos da culpa. Quando eu vejo uma criança batendo no outro e dizendo que o outro que começou, ou que não foi ele, eu acho graça pela cara de pau. Mas é fácil ver que somos assim, também, com a diferença de aprimorarmos nossas habilidades teatrais, sermos sutis em nossas desculpas.
Ao longo do meu convívio com as crianças, eu sinto que todas as pessoas deveriam ser mais parecidas com essas pequenas criaturas: cheias de vida, de idéias loucas, de risos frouxos, de imaginação além da imaginação, de uma eterna não-culpa e perdão, perdão sempre, por bater, por magoar, por fazer o outro chorar - coisa que elas fazem o tempo todo e nós não fazemos nunca. Essas minipessoas vêem o mundo como um universo infinito de diversão, de descobertas, de maravilhas, de castelos, monstros e dragões. Pois eu digo que deveríamos ver o mundo da mesma forma, nos encantarmos da mesma forma. Deveríamos ver o mundo não como algo a ser analisado, mas puramente sentido. Deveríamos experimentar o mundo assim, feito brigadeiro ou bicicleta nova, todos os dias.
Crianças não vêem a mesma coisa da mesma maneira. Para elas, há um leque de possibilidades sobre uma mesma realidade, elas moldam de acordo com seus interesses. Um mesmo brinquedo, um mesmo desenho, um mesmo livro pode ter uma gama de expressões, tons, nuvens diferentes, onde ela repousa e deixa sua cabeça vagar, livre, desprendida de preconceito ou desilusão. Nós, da mesma forma, deveríamos não analisar as coisas de uma maneira tão pura, preta-e-branca, desgastada, fichada; deveríamos, pois, nos sentirmos livres para sermos livres, pensar, dizer, querer ser o que quiser. Deveríamos nos encontrar num constante estado de transformação. Deveríamos não pensar no dia seguinte, mas apenas no que importa. E o que importa é o agora.
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